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19-08-2007

"E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha"

    Digam o que quiserem: ainda em 2007, o poema insuperável é Tabacaria:
 
 
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
     

15-08-2007

I said that

    O Juka Kfouri escreveu isso há pouco:

    "Pode-se enganar a alguns durante muito tempo; pode-se enganar a muitos durante algum tempo; mas não se pode enganar a todos durante todo o tempo", ensinou Abraham Lincoln, sem nem pensar no COB, na CBF, na MSI, nos cubanos deportados ou na programação esportiva da TV aberta no país.

   *** 

    O Bob Dylan cantou coisa parecida, de forma muito mais bela.

Sobre a crítica, etc

    Por muito tempo achei que a crítica fosse inútil. Então algo me fez mudar de idéia. Descobri - a crítica é válida se o sujeito é um bom leitor. Pouco importa que ele seja de direita, de esquerda, alienado ou corinthiano. Mas como descobrir de o sujeito é um bom leitor?
    Acredito que o bom crítico, por antecedência um bom leitor, saberá ver coisas que não vi. É um olho aguçado que consegue captar e fazer relações que eu não consegui - porque estava atento para outros aspectos; porque tem bagagem, leu os clássicos; porque não vi mesmo; porque, azar, sou corinthiano - não, isso não! enfim.
    Há, na internet, um crítico até bem famosinho, que escreve para vários sites, blogs, guardanapos de bar, etc e tal. O único problema é que nunca consegui aprender nada com ele. Tenho uma amiga que adora essa expressão: aprender com. Acha ela a coisa mais linda dizer isso a alguém - aprendi com você. Bem, essa teoria, olá!, aprendi com ela.
    Eu quero do bom crítico que ele me ensine coisas. Aprender a tocar mellotron? Não, disso eu já desisti. Coisas: o que há de tão apaixonante na personagem tal, por que diabos realismo mágico é bom, o que há na cena famosa de autor russo que a torna tão especial, o que faço com Holden Caulfield agora, etc. 
    Esse (dito) crítico da internet é um sujeito que pode até ler bem, mas nunca vi fazer observação interessante sobre nada. Será ele mesquinho? Enfim. Li um livro dia desses e fui ver o que escreveram sobre a obra. Bem, o rapaz copiou uma frase do prefácio do renomado tradutor - típico, quando não copia de orelhas e contracapas - e, não contente, fez um breve resumo do livro. Certo, mas, e eu que li o livro, de que me serviu ler essa crítica? Nada, tudo que eu sabia antes, continuei sabendo depois. Sequer alterou minha análise.
    Todo este conversê tem o seguinte objetivo - dois, aliás: a oficina de contos do José Castello; e uma entrevista em que ele fala, entre outras coisas, de Água Viva. Eu disse o mesmo para Deus no começo das minhas aulas, mas Deus, como se sabe, é inatingível e fez cara de tédio, no que me vingo, agora, solitária e babacamente, dele. Pega essa, Deus!
    Ah, o José Castello? Eu aprendi coisas com ele. E com Deus? Nada que eu já não soubesse.

13-08-2007

Sobre movimentos & macacos blogueiros

    Ah, quer saber, caguei.

09-08-2007

O São Paulo está com Amok

    Amok, apenas Nelson Rodrigues e eu sabemos, é aquela loucura que dá nos elefantes e faz com que eles arrasem, a manadas, cidades inteiras. Desde que perdeu - roubado, é claro! - para o time do finado Nelson, o tricolor paulista não dá refresco pra ninguém. Cruzeiro, Sport, América, Juventude, Grêmio e agora Botafogo - nenhum deles resistiu. E se mais mundo houvera, lá chegara!
    Certo, Amok, porém contido. A defesa é uma muralha mais resistente que diamante. Em dezoito jogos, não levou gol em onze. Isto é que são zagueiros: Alex Silva, Miranda, Breno, Edcarlos e André Dias. Sim, nós que sofremos com Paulão, Wilson, Rogério Pinheiro et caterva, nós que sofremos com eles, finalmente podemos suspirar aliviados.
    E há o ataque. Econômico, porém ataque. Os avantes tricolores não gastam bala: é sempre um a zero. Às vezes, dois, um tiro de lambuja, só pra esbanjar virtuosismo. Até mesmo Diego Tardelli parece regenerado, o que me espanta tanto quanto ao pai da mocinha em Bend the river. No velho oeste, quem ganhava o duelo não era o que tinha mais armas. Como Shane, o São Paulo só precisa de uma chance pra ganhar o jogo.

07-08-2007

Sobre glória e dinheiro

    Essa história de jogar ovos pela janela tem um pouco a ver com aquele diálogo entre o Sharp e o General Custer, naquele filme O intrépido General Custer: "Brindemos ao dinheiro! Ao dinheiro, sim. Mas há algo mais sobre a glória: você poderia levá-la com você quando chegar a sua hora".
    O Boninho leva a glória de nos ter dado uns quinze Biguibróders. O único pecado dele foi ter ensinado a receita do ovomolotov. Te cuida, rapá. A tua hora vai chegá.

04-08-2007

Dos livros e da falta deles

    A Laerce me indicou aos Cinco Livros Que Ocupam Meu Tempo Atualmente.
    Crack-up, de Fitzgerald. Edição da L&PM, com cartas, contos, fragmentos e o texto mais lancinante dos últimos tempos: O colapso.
    O sol também se levanta, de Hemingway. Decorei umas quatro ou cinco frases duronas pra uso pessoal.
    Moby Dick, de Melville. O capitão Acab demorou 154 páginas pra entrar na história e minha leitura acabou naufragando no fim de um semestre que só terminou no sétimo mês.
     Kerouac, de Yves Buin. Rima com ruim.
    O sinal semafórico, de Lêdo Ivo. O Lêdo é casado com a Lêda. Legal né?
    Mas os dois últimos são cortesia das, enfim, férias. Nunca li tão pouco desde que entrei na Universidade. 

03-08-2007

amar os sonhos que restarem frios

    Qualquer que seja a chuva desses campos
    devemos esperar pelos estios;
    e ao chegar os serões e os fiéis enganos
    amar os sonhos que restarem frios.
 
    Porém se não surgir o que sonhamos
    e os ninhos mortais foram vazios,
    há de haver pelo menos por ali
    os pássaros que nós idealizamos.
 
    Feliz de quem com cânticos se esconde
    e julga tê-los em seus próprios bicos,
    e ao bico alheio em cânticos responde.
 
    E vendo em torno as mais terríveis cenas,
    possa mirar-se as asas depenadas
    e contentar-se com secretas penas.
 
    Jorge de Lima, Invenção do Orfeu, Canto Primeiro, XXVI 

02-08-2007

Sugestão

  Em meu trabalho o personagem principal jamais deve dizer exatamente o que pensa, as coisas não devem ser diretas. Creio que jamais se ouviu um "eu te amo" em meus filmes, pois é algo que não consigo imaginar. As situações de um filme a outro podem ser diferentes, mas acredito que os personagens que mostro, e sua concepção da vida, permanecem os mesmos. 
 
    Não acho que as coisas devam ser inteiramente originais. Sou a favor de grandes laços com a tradição, com o que já existe.
 
    François Truffaut 

Numa espécie de febre

    No início, a sinceridade é algo muito importante. Pode ser suficiente para nos impormos, para dizermos: 'Estou aqui'. Sobretudo num primeiro filme. Depois, há a noção de carreira. A sinceridade não basta mais. É necessário se ter uma certa habilidade. Forjamos leis para nós mesmos, às quais passamos a obedecer. Acabamos um pouco obcecados em relação a todos os elementos. E corremos o risco de fazer um cinema frio. De modo que precisamos fazer as coisas numa espécie de febre.
 
    François Truffaut

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