07-02-2008

A ganância é um prato que se come quente

    Porém, a vingança é um prato que se come frio.

10-03-2006

Bob e Johnny

    "Man in the Long Black Coat era o que havia. De algum jeito estranho, pensei nela como a minha "I Walk the Line", uma canção que sempre considerei o ponto alto, uma das mais misteriosas e revolucionárias de todos os tempos, uma canção que promove um ataque a nossos pontos mais vulneráveis, as palavras afiadas de um mestre.

    Sempre achei que a Sun Records e o próprio Sam Phillips haviam criado os discos mais cruciais, enaltecedores e poderosos jamais feitos. Perto dos discos de Sam, todo o resto soava como frescura. Na Sun Records, os artistas estavam cantando por suas vidas e soavam como se viessem do local mais misterioso do planeta. Não havia justiça para eles. Eram muito fortes, podiam fazê-lo subir pelas paredes. Se você estivesse indo embora e se virasse para olhá-los, poderia ser transformado em pedra. Os discos de Johnny Cash não eram exceção, mas não eram o que você esperava. Johnny tinha um brado penetrante, mas dez mil anos de cultura emanavam dele. Ele poderia ter sido um habitante das cavernas. Ele soa como alguém à beira do fogo, ou na neve espessa, ou em uma floresta fantasmagórica, o frescor do óbvio esforço consciente, a pleno vapor e reverberando com o perigo. "I keep a close watch on this heart of mine" (Mantenho esse meu coração sob estrita vigilância). De fato. Devo ter recitado essas linhas para mim mesmo um milhão de vezes. A voz de Johnny era tão grande, fazia o mundo inteiro ficar pequeno, invulgarmente baixa - sombria e retumbante, e ele tinha a banda certa para acompanhá-lo, o ritmo ondulante e a cadência de click-clack. Palavras que eram preceitos da lei e sustentadas pelo poder de Deus. Quando ouvi "I Walk the Line" pela primeira vez, muitos anos antes, soou como uma voz bradando: "O que você está fazendo aí, garoto?". Eu também estava tentando manter meus olhos bem abertos."

 

    Não à toa, Bob Dylan confessa, no documentário No Direction Home, que o dia em que encontrou com Johnny Cash foi um dos melhores dias de sua vida.

Fazer canções

    Mais Bob Dylan:

    "Uma canção é como um sonho, e você tenta torná-la realidade. São como países estranhos nos quais você tem que entrar. Você pode escrever uma canção em qualquer lugar, na cabine de um trem, em um barco, no lombo de um cavalo - estar em movimento ajuda. Às vezes, pessoas que possuem o maior talento para escrever canções jamais escrevem nenhuma porque não estão em movimento."

    Ou aquela conversa de que, quando se é poeta, é muito difícil explicar à mulher que quando você está na janela da cozinha olhando pra fora - isto é um trabalho qualquer, como preparar o jantar.

O começo de Dylan

    "(...) mas às vezes tudo o que se precisa é de um piscar de olhos ou um aceno de cabeça de algum lugar inesperado para alterar o tédio de uma existência frustrante.

    Isso aconteceu comigo quando Gorgeous Georde, o grande lutador, veio à minha cidade. No meio dos anos 50 eu estava me apresentando no saguão do quartel da guarda nacional, no prédio do memorial dos veteranos, local onde todos os grandes shows aconteciam - exposições de gado e jogos de hóquei, circos e lutas de boxe, encontros de fé com pregadores itinerantes, festanças de country e western. (...) Eu estava tocando em uma plataforma improvisada no saguão do prédio, com a costumeira atividade frenética das pessoas circulando ao redor, e ninguém estava prestando muita atenção. De repente, as portas se escancararam e Gorgeous George em pessoa adentrou. Avançou trovejante como uma tempestade, não seguiu pela área atrás do palco, veio direto através do saguão, e parecia quarenta homens. Era Gorgeous George em toda a sua magnífica glória, com toda a cintilação e vitalidade que dele poderia se esperar. Tinha criados e estava cercado de mulhres carregando rosas, vestia uma majestosa capa dourada com borda de pele e seus longos cachos loiros flutuavam. Passou rápido pelo palco improvisado e deu uma olhada na direção da música. Não interrompeu a marcha, mas olhou para mim, os olhos faiscando ao luar. Piscou e pareceu proferir a frase: "Você está dando vida a isso".

    Não importava se ele realmente disse aquilo ou não. O que eu pensei tê-lo ouvido dizer é o que importava, e jamais esqueci. Era todo o reconhecimento e encorajamento de que eu precisaria pelos anos seguintes. Às vezes isso é tudo de que se precisa, o tipo de reconhecimento que surge quando você está fazendo uma coisa por amor a ela e está ligado na importância dela - o que acontece simplesmente é que ninguém ainda reconhece. "

 

    Bob Dylan - Crônicas, volume I