31-12-2007

Tudo igualmente diferente

    Vai aí, uma do velho Braga - e uma nova do Yamandu: 

    O ano passou. Não sei se vós, leitor amigo, ou vós, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como já passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que vem depois da meia-noite me perturba.

    Já passei ano só, em terra estranha, ou,– o que é mais amargo, –na minha; ou andando como um tonto na rua ou afundado num canto de bar ruidoso; ou tentando inutilmente telefonar; dormindo; com dor de dente. E quando digo de todo jeito estou dizendo também de jeito feliz, entre gente irmã ou nos braços de algum amor eterno -– braços que depois dobraram a esquina do mês e da vida, e se foram, oh! provavelmente sem sequer a mais leve mágoa nos cotovelos, apenas indo para outros braços.

    Passam os anos, passam os braços; mas fica sempre, quando a terra dá outra volta em si mesma, essa emoção confusa de um instante. Conheço pessoas que fogem a esse segundo de consciência cósmica, afetando indiferença, indo dormir cedo – como se não estivessem interessadas em saber se esta piorra velha deste planeta resolveu continuar girando ou não. É singular que entre tantas festas religiosas e cívicas nenhuma chegue a ser tão emocionante e perturbe tanto a humanidade como esta, que é a Festa do Tempo. É como se todos estivéssemos fazendo anos juntos; é o Aniversário da Terra.

    Se a alma estremece diante do Destino, o espírito se confunde; reina uma tendência à filosofia barata; vejam como eu começo a escrever algumas palavras com maiúsculas, eu que levo o ano inteiro proseando em tom menor, e mesmo o nome de Deus só escrevo assim para não aborrecer os outros, ou para que eles não me aborreçam..

    Já ao nome do diabo, não; a esse sempre dei, e dou, o ‘d’ pequeno, que outra coisa não merece a sua danação. A ele encomendamos o ano que passou - e a Deus, o Novo. Que vá com maiúscula também esse Novo; fica mais bonito, e levanta nosso moral.

    E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: “Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, ás vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão.

07-03-2007

E com isto está tudo dito:

    A mulher é o aperitivo que anima o homem a provar o prato indigesto da vida.

    Noel Rosa, que teve a decência de morrer jovem.

14-06-2006

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Com um dia de atraso, um poema do Gênio, do supra-Camões, do meu poeta preferido:

 

    Há doenças piores que as doenças,

    Há dores que não doem, nem na alma

    Mas que são dolorosas mais que as outras.

    Há angústias sonhadas mais reais

    Que as que a vida nos traz, há sensações

    Sentidas só com imaginá-las

    Que são mais nossas do que a própria vida.

    Há tanto coisa que, sem existir,

    Existe, existe demoradamente,

    E demoradamente é nossa e é nós...

    Por sobre o verde turvo do amplo rio

    Os circunflexos brancos das gaivotas...

    Por sobre a alma o adejar inútil

    Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

    Dá-me mais vinho, porque a vida é nada. 

10-06-2006

Co'as mãos? Não: Camões!

    Busque Amor novas artes, novo engenho,

    Para matar-me, e novas esquivanças,

    Que não pode tirar-me as esperanças,

    Que mal me tirará o que não tenho.

 

    Olhai de que esperanças me mantenho!

    Vede que perigosas seguranças!

    Que não temo contrastes nem mudanças,

    Andando em bravo mar, perdido o lenho.

 

    Mas, conquanto não pode haver desgosto

    Onde esperança falta, lá me esconde

    Amor um mal, que mata e não se vê.

 

    Que há dias que n'alma me tem posto

    Um não sei quê, que nasce não sei onde,

    Vem não sei como, e dói não sei porquê. 

14-05-2006

Frases encontradas num guardanapo para o Dia das Mães

    Vamos deixar de hipocrisia: mãe por mãe, a minha é melhor.

    Mãe, mais-que-mulher! (nesta parte é possível notar gotas de álcool no guardanapo)

    Meus pais: meu pai e minha mãe. Só a mãe goza o mistério de ser mãe e pais.

    Já conheci muitas mães que não tiveram filhos.

    Se ter mãe fosse qualidade, os filhos-da-mãe seriam as pessoas mais cândidas, puras e maravilhosas da face da Terra.

    Mãe que é mãe (frase interrompida)

    A Ciência desconhece a palavra mãe.

    A mãe é o único artista que expõe seus esboços em praça pública.

   Mãe é a mulher que sonhou Príncipes Encantados e, por desilusão, caiu no alumbramento de fazer Reis Encantados.

    Só as mães são felizes mas só os filhos sabem o quanto isto custa. (suaves gotas de suor no guardanapo)

    Mãe é um livro que pode ser lido somente por uma inversão de valores: não pelo criador, mas pela criatura.

    Após desdobrar o guardanapo encontrei isto na parte interna - tirei o ponto final e botei exclamação, que o pecado, se fosse, seria pelo excesso:

Se é certo que o amor é um bem profundo
Se é certo que o amor é um sol ardente,
Eu hei de amar-te sempre neste mundo
E sempre, sempre, sempre - eternamente!

08-05-2006

Um post tardio, é vero

E tenho dito:  não analisa não!

14-04-2006

Para Drika quando dos seus vintantanos à moda satírica do boca do inferno mas no século XXI

Ensina o tempo - olha o firmamento,
Quanto mais vida, Drika, menos vida:
Brilhos virtuais duma morte que é vida.
Aprende o firmamento - esquece o tempo.

Quem dera fazer anos em abril,
Ser como tu, um puro traste em flor,
Flor só espinho, espinho só dor
Dor sem remédio, mas nem com doril!

É procissão? Para que tanta vela?
Não, não...é Drika ficando mais velha!
Ai qu'eu me dano! Hoje qu'eu me lasco!

O presente esqueci, beijo não dei,
Logo cuma defensora da lei!
Mas te faço um poema & um churrasco!

13-03-2006

Contra-proposta

    Sobre uma proposta de efeméride:
 
 
    Deixo a quem quer que seja
    A quem queira, a quem possa, a quem sirva, a quem goste,
    A tarefa de construir um mundo novo.
    Minha obrigação, o mínimo
    Que inda posso fazer
    É ajudar acabar com este monturo
    Onde inadvertidamente me jogou a
    Senhora minha mãe.
    Há múltiplas maneiras de ajudar a acabar
    Com o monturo
    (O monturo, aliás, não tem nada de grande, é até fácil de arrasar).
    Há uma que particularmente me apeteceu.
    Uma delas é arrebentar-lhe ostensivamente com as regras do jogo.
    A outra é desenvolver até o requinte as referidas regras do jogo
    E obedecer, também até o requinte, as ditas regras do jogo.
    Outra maneira é aumentar o monturo fazendo filhos
    Educando-os e ensinando-os higienicamente a fazer outros filhos.
    Outra maneira é ir à missa todos os domingos e contribuir para as obras da paróquia.
    Outra maneira é lançar mais um jornal,
    Mais um partido, mais um grupo de estudos,
    Mas uma conspiração militar ou civil.
 
    Mário Faustino (1930-1962), poeta-crítico e crítico-poeta, infelizmente não viveu muito; talvez o suficiente. Os poetas ladram e os poemas não passam.

08-03-2006

Ah, essas mulheres...

    No dia das mulheres, vocês poderiam me responder qual é o motivo de 90% dos leitores desse blog serem leitoras.
    A gerência agradece a preferência, principalmente a feminina.