05-04-2008

Em verso e prosa

    Rubem Braga: O desaparecido - Ao espelho.

24-03-2008

"Se é isso que você quer, vai fundo"

    Eu já tinha publicado um livrinho de poesia em 1978, com amigos paulistas e cariocas, chamado “Amazonas, um rio entre ruínas”. Um livro artesanal, feito na FAU, onde eu estudava. E quando lancei em Manaus, pensei: “ninguém vai ler mesmo”. Até que o livreiro disse: “olha, está vendendo o seu livro, dois ou três por semana”. Um tempo depois descobri que a minha mãe mandava comprar o livro para dar para as amigas dela. “Por que você fez isso?”, perguntei. “Ah, é para te estimular, para você achar que tem leitores”.

 

    Milton Hatoum 

21-02-2008

Ele aceitou a penumbra

    Um pouquinho de Chesterton, em Ortodoxia - aliás, é desse livro aquela famosa frase "o louco é aquele que perdeu tudo menos a razão":
 
    "Enquanto se tem um mistério se tem saúde; quando se destrói o mistério se cria a morbidez. O homem comum sempre foi sadio porque o homem comum sempre foi um místico. Ele aceitou a penumbra. Ele sempre teve um pé na terra e outro num país encantado. Ele sempre se manteve livre para duvidar de seus deuses; mas, ao contrário do agnóstico de hoje, livre também para acreditar neles. Ele sempre cuidou mais da verdade do que da coerência. Se via duas verdades que pareciam contradizer-se, ele tomava as duas juntamente com a contradição. Sua visão espiritual é estereocópica, como a visão física: ele vê duas imagens simultâneas diferentes e, contudo, enxerga muito melhor por isso mesmo.
    Assim, ele sempre acreditou que existia isso que se chama de destino, mas também isso que se chama de livre-arbítrio. Assim, ele acreditava que as crianças eram de fato o reino do céu, mas, apesar disso, deviam obedecer ao reino da terra. Ele admirava a juventude por ela ser jovem e a velhice não o ser. É exatamente esse equilíbrio de aparentes contradições que tem sido a causa de toda a vivacidade do homem sadio. Todo o segredo do misticismo é este: que o homem pode compreender tudo com a ajuda daquilo que não compreende. O lógico mórbido procura tornar tudo lúcido e consegue tornar tudo misterioso. O místico permite que uma coisa seja mística, e todo o resto se torna lúcido." 

06-01-2008

Estável sob as estrelas

    "A literatura não diz nada aos seres humanos satisfeitos com sua sorte, que se contentam com a vida tal como a vivem. Ela é alimento de espíritos indóceis e propagadora de inconformidade, um refúgio para aquele a quem falta algo na vida, para não ser infeliz, para não se sentir incompleto, sem se realizar suas aspirações. Sair para cavalgar junto ao esquálido Rocinante e seu desbaratado ginete pelos descampados de La Mancha, percorrer os mares em busca da baleia branca com o capitão Ahab, beber o arsênico com Emma Bovary ou nos converter num inseto com Gregor Samsa, é uma maneira inteligente que inventamos para desagravar a nós mesmos das ofensas e imposições dessa vida injusta, que nos obriga a ser sempre os mesmos, quando gostaríamos de ser muitos, tantos quanto exijam para se aplacar os desejos incandescentes de que estamos possuídos.
    A literatura somente apazigua momentaneamente essa insatisfação vital, porém, nesse milagroso intervalo, nessa suspensão provisional da vida na qual nos faz desaparecer a ilusão literária - que parece nos arrancar da cronologia e da história e nos converter em cidadãos de uma pátria sem tempo, imortal -, somos outros. Mais intensos, mais ricos, mais completos, mais felizes, mais lúcidos que na constrangida rotina da nossa vida real." Mario Vargas Llosa
 
    "O tempo é circular, dizem esses eventos; depois da morte de alguém, converso com outro alguém que se lembra dele, ou que quer saber algo a seu respeito; construímos o muro do jardim com as pedras que caíram do celeiro; o que não lembro mais está ali, em algum lugar, em uma das páginas cuidadosamente numeradas de um de meus livros. E eu, claro, vou desaparecer; o novo muro também vai desmoronar; os livros se dispersarão. Mas aquilo de que todos nós fazemos parte, uma pequena parte que seja, vai continuar, estável sob as estrelas. E, aos olhos de um escultor cinzelando a pedra, o todo ficará tanto mais belo com a nossa ausência."  Alberto Manguel 

31-12-2007

Tudo igualmente diferente

    Vai aí, uma do velho Braga - e uma nova do Yamandu: 

    O ano passou. Não sei se vós, leitor amigo, ou vós, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como já passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que vem depois da meia-noite me perturba.

    Já passei ano só, em terra estranha, ou,– o que é mais amargo, –na minha; ou andando como um tonto na rua ou afundado num canto de bar ruidoso; ou tentando inutilmente telefonar; dormindo; com dor de dente. E quando digo de todo jeito estou dizendo também de jeito feliz, entre gente irmã ou nos braços de algum amor eterno -– braços que depois dobraram a esquina do mês e da vida, e se foram, oh! provavelmente sem sequer a mais leve mágoa nos cotovelos, apenas indo para outros braços.

    Passam os anos, passam os braços; mas fica sempre, quando a terra dá outra volta em si mesma, essa emoção confusa de um instante. Conheço pessoas que fogem a esse segundo de consciência cósmica, afetando indiferença, indo dormir cedo – como se não estivessem interessadas em saber se esta piorra velha deste planeta resolveu continuar girando ou não. É singular que entre tantas festas religiosas e cívicas nenhuma chegue a ser tão emocionante e perturbe tanto a humanidade como esta, que é a Festa do Tempo. É como se todos estivéssemos fazendo anos juntos; é o Aniversário da Terra.

    Se a alma estremece diante do Destino, o espírito se confunde; reina uma tendência à filosofia barata; vejam como eu começo a escrever algumas palavras com maiúsculas, eu que levo o ano inteiro proseando em tom menor, e mesmo o nome de Deus só escrevo assim para não aborrecer os outros, ou para que eles não me aborreçam..

    Já ao nome do diabo, não; a esse sempre dei, e dou, o ‘d’ pequeno, que outra coisa não merece a sua danação. A ele encomendamos o ano que passou - e a Deus, o Novo. Que vá com maiúscula também esse Novo; fica mais bonito, e levanta nosso moral.

    E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: “Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, ás vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão.

27-12-2007

Juventude

    Coetzee é minha mais nova paixão:

    "A angústia que pesa sobre Monica Vitti e outros personagens de Antonioni é de um tipo bastante desconhecido para ele. Na verdade, não é angústia, absolutamente, mas algo mais profundo: Angst. Queria ter um gostinho de Angst, mesmo que só para saber como é. Mas, por mais que tente, não consegue encontrar em seu coração nada que possa reconhecer como Angst. Angst parece ser uma coisa européia, especificamente européia; ainda tem de encontrar seu rumo até a Inglaterra, para não falar das colônias da Inglaterra.

    Num artigo no Observer, a Angst do cinema europeu é explicada como fruto do medo da aniquilação nuclear; também como a incerteza posterior à morte de Deus. Ele não se convence. Não pode acreditar que o que faz Monica Vitti sair para as ruas de Palermo debaixo da furiosa bola vermelha do sol, quando podia ficar no frescor de um quarto de hotel com um homem a lhe fazer amor, seja a bomba de hidrogênio ou uma falha da parte de Deus, que não fala com ela. Seja qual for a verdadeira explicação, deve ser algo mais complicado que isso."

23-12-2007

Eu penso em Jack Kerouac

    Bem, tem gente que acha que On the road é apenas um livro sobre um bando de malucos que resolve percorrer os Estados Unidos enquanto se droga. Se você leu, sabe que a coisa não é bem essa - On the road é como jazz, se você precisa perguntar, é porque nunca vai entender. E tomaí a última página lida pelo autor.

09-11-2007

Às vezes as pessoas lêem O Encontro Marcado

     E me dizem: "Mas é um livro triste!". E eu respondo: E daí?

04-11-2007

Leitura de saguão

    Os atrasos em aeroportos permitem que as pessoas coloquem as leituras em dia. As pessoas, não sei, mas eu, sim. A Suavidade do Vento, de Cristovão Tezza, é um filme do Woody Allen. Desses que ele lança quando não está muito inspirado, mas garante a diversão. Ah, você já sabe: o pior filme de Woody Allen é melhor que 90% dos filmes atuais etc.
    Já O Diário de Antônio Maria tem algumas belas passagens:
 
    "Conheço-a bem. Mas até onde uma pessoa pode conhecer a outra. Isto é sempre muito pouco. O homem se habitua ao seu mistério e se abriga nele até a morte. Mesmo quando confessa, quando parece contar-se e explicar-se ao máximo, não está mais que causando uma impressão. Diverte-se assim.
    Geralmente gostamos de causar boas impressões. E fabricamos as impressões que gostaríamos de causar. (...) Mas acontece que ver e sentir são atos espontâneos e casuais. Dificilmente, vemos o que nos está sendo mostrado. Quem enfeita um gesto e o realiza com intenção de êxito, perde-o quase sempre, entre outros que foram mais numerosos e eram naturais. Não nos devemos esquecer de que é inútil fazer a nossa beleza. Ela é uma descoberta do próximo. Aqui está, por exemplo, uma flor. Não fez nada para que eu a achasse bela. Fui eu que senti a combinação do seu silêncio com o esmaecimento de seu vermelho. Fui eu que descobri a elegância na inclinação do seu caule para a direita. Sou eu que penso na sua morte e na sua volta. Todas as flores volta sozinhas à sua glória - como a rosa de Rilke. A rosa do Petit Prince julgava-se poderosa ou defendida, porque tinha quatro espinhos. E vejo aqui a minha flor, que não fez o seu silêncio, nem o seu vermelho, nem se inclinou para a direita com intuito de beleza. Eu a vi e senti assim - de modo próprio."
 
     Bem, se você ainda não sabe quem é Antônio Maria, está na hora de se mexer.

26-10-2007

caio f.

    "Eu fiz questão, na minha vida, de correr absolutamente todos os riscos. Tudo que minha geração fez, eu fiz radicalmente até o fim."

     O vídeo mostra quem é caio f. (dica da Mari-Mari).

     Vou fazer um trabalho sobre ele e se você for uma Pessoa Com Ar Milimetricamente Descolado Que Lê Caio Éfe, faça o favor de se manifestar caso tenha Idéias Inovadoras Para Uma Nova Leitura de Caio Fernando Abreu.

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