<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?> <?xml-stylesheet type="text/xsl" href="/rss20.xsl" media="screen"?> <rss xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" version="2.0"> <channel> <title>Labirinto do Não - perfis</title> <description>&amp;quot;Dos dioses hay, y son: Ignorancia y Olvido&amp;quot; - Rubén Darío</description> <link>http://labirintodonao.blogspirit.com/perfis/</link> <lastBuildDate>Fri, 29 Aug 2008 08:32:57 +0200</lastBuildDate> <generator>blogSpirit.com</generator> <copyright>All Rights Reserved</copyright>  <item> <guid isPermaLink="true">http://labirintodonao.blogspirit.com/archive/2006/04/05/linda-sádica-e-libertária.html</guid> <title>Linda, sádica e libertária</title> <link>http://labirintodonao.blogspirit.com/archive/2006/04/05/linda-sádica-e-libertária.html</link> <author>noreply@blogspirit.com (Gabriel)</author>   <category>Perfis</category>   <pubDate>Fri,  7 Apr 2006 01:20:00 +0200</pubDate> <description> &lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Libertária, sádica, falta um terceiro adjetivo...&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Linda, pronto, fica perfeito assim.&lt;/i&gt;&lt;/p&gt; &lt;div align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;/div&gt; &lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esse o meio. Agora o começo. O relógio da parede marcava oito horas de um dia nublado quando recebi a ordem de fazer um perfil daquela que é conhecida pelos íntimos por Nunu. Oh, santa paciência, era só o que me faltava: perfil de Nunu. Who's &lt;a href=&quot;http://nuvensdepalavras.blogspot.com/&quot;&gt;Nunu&lt;/a&gt;?&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Peguei a pauta. Dados conhecidos: Nunu é uma moça que gosta de Strokes.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Esse pauteiro, já falei milhares de vezes: é THE Strokes. THE Bítous, THE Dórs, entendeu?&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Abordagem: se vira, mané.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ainda aguentar piada de pauteiro, yo merezco. Não me chame de filho da pauta!&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Com a pauta em mãos e de má vontade, rumei para Americana. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mas não se mudam os pedágios. Cumpre a este escriba dar um brevíssimo panorama de Americana. Fundada em 1924, a cidade leva este nome por causa dum Senador Willian H. Norris, que teria comprado umas terras no Brasil para os compadres sulistas. Daí foi como todos sabem: comeram a maçã e a cidade cresceu até chegar aos 200 mil habitantes (os 607 ficam de troco; melhor não relacionar a piada do homem da mão sangrenta com o crescimento populacional).&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Perguntei pra primeira pessoa no primeiro ponto de ônibus que encontrei: ondiabos fica essa espelunca, o Clube do Vinil. A resposta em americanês: segue reto toda vida, duas à direita, depois donde Judas perdeu as botas, é lá na calçada com hidrante. A primeira pessoa no primeiro ponto de ônibus sempre sabe a resposta. Um hábito bem brasileiro: a pessoa indica um caminho qualquer, mesmo que não o saiba. Homem cordial é isto.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não precisei gastar a vida toda e estacionei logo em frente do hidrante. Por via das dúvidas, deixei as botas de Judas na calçada antes de entrar. Supostamente era aqui que ela batia ponto toda manhã. Munido de uma fotografia de Nunu - vestida à la Matrix com azulejos ao fundo - entrei no Clube do Vinil. Duas moscas e uma mesa animadíssima compunham o cenário. O leitor acredite se quiser, era este o nome da bodega: Clube do Vinil. As falas musicais - talvez por isso.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Ei, você!, bradei com o dedo em riste.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; She seemed impressed by the way I came in:&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Quem é você, o que está fazendo aqui?&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp; - Hey hey, quem faz as perguntas aqui sou eu - enquanto sustentava um olhar Clint Eastwood em filme de faroeste. Please don't slow me down if I'm going too fast. Sem drinks &amp;amp; drugs, baby.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Gosto de homens que emanam o medo. Meet me in the bathroom. As próximas horas serão muito boas.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Entrei. She is fixin her hair. &quot;You sound so angry, just calm down, you found me&quot;. Hum. Silêncio tão grande que podia ouvir a água escorrendo pelos canos. Não, não foram 15 minutes of pain.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - I've got nothing to say.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Escuta aqui (que decadência, meter Biquini Cavadão na conversa...), stop this! Je parle português, capiche?&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - I've got nothing to say, ela repetiu mais sete vezes.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Essa necessidade comercial de ter refrão me impede de progredir na vida. Ela tem o mesmo problema, pensei. Oh, ela se chama Núria, foi o que descobri com sua amiga (não posso dizer o nome das minhas fontes, sorry), doravante Madame E. Nick Horby já tinha posto a questão nestes termos: eu ouvia música pop porque era infeliz ou era infeliz porque ouvia música pop?&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Passamos então ao inevitável top 5. O famigerado top 5. Molhei a calça ao sentar na pia. Ela encostou numa das paredes limpas. Vamos-lá. Cinco coisas que você não fez, Núria&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Não tomei antidepressivos, nunca me vesti de Mick Jagger, jamais tentei me matar, ouvi Menudos (não se reprima, não se reprima) e ainda não consegui cuspir um trident canela do décimo-terceiro andar.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Diante de afirmações tão categóricas só pude me calar. Saquei a gaita do bolso e imitei Julian Casablancas nos seus piores momentos. Banheiros têm acústicas tão boas...Nunu começou a dançar com sua air guitar. Sirenes de polícia ao fundo.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Sossega o facho, é só uma música do Radiohead, acalmei-a.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E era. Finalmente tanta cultura musical servira pralguma coisa.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Olha o Thom Yorke vestido de duende na janela!&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela olhou. O dia estava ganho. Caí na gargalhada - e da pia também. Ela demorou três pingos d'água pra perceber que fora uma piada. Ela tacou sua air guitar em cima de mim e me feriu imensamente.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Hey, darling, listen me. Isn't hard to explain. Preciso fazer um perfil e explicar o porquê do começo desse teu perfil, vai, desembucha. Quer dizer que você leu Sade?&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Sim, disse entendiada, li Sade e sou libertária.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Libertária, sádica, falta um terceiro adjetivo...&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Linda, pronto, ficou perfeito.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Será linda, sádica e libertária, por uma questão de desarmonia, viva la revolución!&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp; - Dizque eu li Sartre mas tive problemas. O existencialismo é um humanismo com as sobras da lasanha da mamma não caíram bem. O inferno são os outros!&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A conversa era pontuada pelo ritmo da torneira; neste instante, os pingos rareavam. Pensei que finalmente aquela torneira desgraçada iria parar de pingar. Não parou&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Sim, mas você não tem cara de repórter, você está mais para investigador policial com essa jaqueta de couro preta.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Minhas pequeninas células cinzentas ligaram os pontos e concluíram que ser Julian Casablancas não é fácil. Será que se eu mudasse o nome para Nikolai as coisas seriam mais fáceis? Nikolai tem uma força, nem carece de sobrenome: Nikolai.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Oh, ando lendo muitos policiais, é a influência. Além dos filmes noir que assisto de vez em quando. Tu sabes.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Sim, eu sei. Queria saber qual o sentido da vida.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Uma metafísica! Justo agora que eu pensei na torneira jorrando sangue. Falaríamos de Pulp Fiction...&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - O sentido da vida, sabe que é uma grande pergunta esta.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Oh, não me diga, vou te dar uma bulacha na tua cara, cretino!&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas não se moveu. Things in bars that people do...&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Você sabe cozinhar?&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Ai.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quando Nunu se sente fatigada, Nunu diz &quot;ai&quot; com fúria nos olhos, uma fúria tamanha, capaz de trincar um copo de cristal.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Ai. Sou muito boa de cozinha, viu!&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Sabe fazer calda de marmelo?&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Sei.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O tempo estava passando e pensei que não faria um perfil como fizeram do Sinatra, nem ao menos um perfil como do Hemingway. Quem sabe se eu começasse assim:&lt;br /&gt; &lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Uma voz sobressai no Clube do Vinil, um bar temático onde se encontram as figuras descoladas da cidade. O grito vem da mesa mais ao fundo, iluminada por penumbras e regada a muito álcool. São doze pessoas que se reúnem toda quinta-feira a partir das dez da manhã. Entre elas, a dona da voz: Núria. Para os íntimos, Nunu. Ela está abraçada com Madame E. enquanto sorri despudoradamente para o Misterioso Corredor X. Passa do meio-dia e o encontro ainda está no começo. Nunu não se contém: cool it, we won't take this shit! Tio brother camadara chefia amigão desce mais uma rodada!!!&lt;/i&gt;&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sucede que eu não sou Lillian Ross, não trabalho pro The New Yorker e Núria não se chama Ernest.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - You talk way too much, said Nunu.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Is this it? Can't you see I'm trying?&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Silêncio pesado. Dir-se-ia que nem mesmo a pétala de uma flor desabrochando era tão silenciosa. Tentei uma última vez&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - Sweet Nunu, nanãnanãnanã, I don't wanna change your time, I don't wanna waste your time...&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; - It's almost midnight. I can see the city lights.&lt;br /&gt; &amp;nbsp;&amp;nbsp; Não adiantaram as falas musicais, a jaqueta Casablancas. Lou Reed também não me salvou. O céu estava espesso e um vira-latas gania assustadoramente. Fornau fornau fornau andercontrou...&lt;/p&gt; </description>  </item>  </channel> </rss> 