22-05-2006

"Mas, o que é que você quer?"

    Van Gogh foi um mártir. Somente um mártir pode afirmar que sofrer sem reclamar é a única lição que deve ser aprendida nesta vida. Pouca gente deve ter sofrido mais do que Van Gogh. Tanto fisica como mentalmente. Seu drama começa no próprio nascimento. Vincent veio ao mundo um ano exato após a morte do primogênito da família, que possuía o mesmo nome. Há quem sustente que isto o atormentou pela vida inteira, porque sentia como se tivesse tomado o lugar do irmão natimorto, etc. A história não começa bem.
    Quando adulto, quis ser pastor. Não teve sucesso e foi desacreditado pela família. Não teve sucesso porque vivia em condições miseráveis, ajudando mineiros numa vilazinha qualquer graças à sua alma caridosa. Um pastor não podia viver daquele modo, disseram-lhe. Decidiu-se pintor. Só vendeu um quadro em vida, isto porque o comprador era amigo de seu irmão, o Théo. Em mais um gesto de caridade, assumiu o filho de uma mulher desequilibrada. Apaixonou-se por uma prima e foi rejeitado.
    Tentou de todas as maneiras alcançar comunhão com os outros pintores. Conseguiu trazer Cézanne para morar em sua casa. Após atacá-lo, arrependeu-se e cortou a orelha. Entregou a orelha pruma prostituta. Voltou pra casa e ficou sangrando.
    Foi salvo pelo carteiro Roulin. Recuperou-se. Os vizinhos em Arles chamavam a polícia a cada atitude suspeita do holandês. Internou-se em sanatórios na última tentativa de recuperar a sanidade mental. Em vão.
    Este é um breve resumo da vida de Van Gogh, meu pintor preferido. Em vão parece ser a expressão certa. Toda sua vida parece ter sido em vão: tudo o que procurou, Vincent não encontrou - amor, dinheiro para se alimentar, amigos, comunhão. Infelizmente os gênios são incompreendidos porque a sociedade em que ele vive é sempre atrasada demais para suas idéias. Existem pessoas que estão na linha de frente do tempo e que sofrem imensamente por isto. É o preço que se paga. Rimbaud foi outro: sua vida e sua obra são grandíssimos socos no estômago de todas as pessoas. Quando penso nos dois - e no que sofreram - não acredito que estamos melhores do que antes de suas passagens pela Terra.
    É Artaud quem tem a palavra: "Não conheço um só psiquiatra capaz de perscrutar um rosto de homem com força tão esmagadora, e como que a trincho dissecar-lhe a irrefragável psicologia. O olhar de Van Gogh está pendurado, aparafusado, está envidraçado atrás das pálpebras quase inexistentes, das sobrancelhas magras e sem nenhuma ruga. É um olhar que fura a direito, trespassa neste rosto feito a podão como uma árvore bem talhada. Mas Van Gogh captou o instante em que a íris vai despejar-se no vazio, em que esse olhar, que sai ao nosso encontro como a bomba de um meteoro, ganha a cor átona do vazio e do inerte que o preenche. Melhor do que qualquer um psiquiatra deste mundo, o grande Van Gogh situou assim a sua doença."
    As cartas de Vincent para seu irmão são das coisas mais dolorosas que uma pessoa pode ter escrito:
    "Na vida de um pintor, talvez a morte não seja o mais difícil. Eu confesso não saber nada a respeito, mas a visão das estrelas sempre me faz sonhar, tão simplesmente quanto me fazem sonhar os pontos negros representando cidades e aldeias num mapa geográfico. E eu me pergunto por que os pontos luminosos do firmamento nos seriam menos acessíveis que os pontos negros do mapa da França? Se tomamos o trem para ir a Tarascon ou a Rouen, tomamos a morte para ir a uma estrela. O que certamente é verdadeiro neste raciocínio, é que estando na vida nós não podemos ir a uma estrela, assim como estando mortos não podemos tomar o trem. Enfim, não me parece impossível que a cólera, as pedras, a tísica, o câncer, sejam meios de locomoção celeste, assim como os barcos a vapor, os ônibus e a estrada de ferro são meios terrestres."
    Now I think I now what you tried to say to me and how you suffered for your sanity and how you tried to set them free. Não precisei morrer para tomar o trem celeste. Há algo no modo como os pontos luminosos brilham nos quadros de Van Gogh que não sei explicar. Aliás, Van Gogh pra mim é o único que faz valer aquela frase "uma imagem vale mais que mil palavras". Não creio que seja possível transmitir em palavras tudo o que ele transmite em suas telas.
   É sabido que, devido ao seu gênio, Vincent brigou inúmeras vezes com Théo. O pintor holandês achava que seu irmão não estava negociando corretamente seus quadros e por isso eles não eram vendidos. É em sua última carta, encontrada no bolso do colete, que Van Gogh dá um grande nocaute em todos nós:
   "Pois bem, em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte - bom -, mas pelo quanto eu saiba você não está entre os mercadores de homens, e você pode tomar partido, eu acho, agindo realmente com humanidade, mas, o que é que você quer?"
    Théo morreu seis meses depois. Há perguntas que são devastadoras, justamente por sabermos suas respostas - mas fugirmos, covardemente, delas.