22-04-2008
Os amantes sem dinheiro
Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua
passeava de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.
Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.
Eugénio de Andrade
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17-02-2008
Já que é domingo...
Se tantas vezes te importuno, ó Deus meu vizinho,
atendo forte à tua porta na noite extensa,
é porque te ouço respirar, da tua presença
sei: estás na sala, sozinho.
Se de algo precisares, não há ninguém ali
que possa te trazer um gole d’água sequer.
Vivo sempre à escuta. Dá-me um sinal qualquer.
Estou bem perto de ti.
Entre nós há apenas um muro, coisa pouca,
por mero acaso áliás;
bem pode ser que um grito da tua ou minha boca –
e eis que se desfaz
sem só rumor ou ruído.
Com imagens tuas o mundo foi construído.
Diante de ti tuas imagens são como nomes.
e quando um dia dentro de mim esteja acesa
a luz com que te conhece minha profundeza,
será, nas molduras, brilho que se esbanja e some.
E os meus sentidos, que um torpor célere consome,
estão sem pátria, exilados da tua grandeza.
Rainer Maria Rilke
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05-11-2007
Poemas da Vicissitude
Invenção do Orfeu - Canto Quinto
VIII
A estepe e a noite se deitaram juntas,
paralelas as asas sobre as asas,
ambas com as solidões, ambas defuntas,
e entre elas, sós, ardentes como brasas,
espreitando à direita e à esquerda o estrito
espaço ínfimo que entre as duas corre,
correm cruciados como o imenso grito,
imenso grito mudo de quem morre,
os olhos renegados de quem está
esperando, esperando. Que esperando?
Entre a estepe e a noite olham olhos, rente
às trevas opressoras, olhos que a
estepe e a noite juntas se estreitando
apagam misericordiosamente.
Jorge de Lima
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13-10-2007
As aparições
Invenção do Orfeu - Canto Quarto
XIV e XV
Nasce do suor da febre uma alimária
que a horas certas volta pressurosa.
Crio no jarro sempre alguma rosa.
A besta rói a flor imaginária.
Depois descreve em torno ao leito uma área
de picadeiro em que galopa. Encare-a
o meu espanto, vem a besta irosa
e debasta-me o juízo em sua grosa.
Depois repousa as patas em meu peito
e me oprime com fé obsidional.
Torno-me exangue e mártir no meu leito,
repito-lhe o que sou, que sou mortal.
E ela me diz que invento esse delírio;
e planta-se no jarro e nasce em lírio.
Jorge de Lima
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12-10-2007
Quando eu era criança
Quando eu era criança
brincava sozinho
num canto do pátio
da escola.
Eu odiava bonecas e
odiava jogos, os animais
eram inamistosos e os pássaros
levantavam vôo e fugiam.
Se alguém me procurava
escondia-me atrás de uma
árvore e gritava "Eu sou
um órfão".
E agora aqui estou, o
centro de toda a beleza!
Escrevendo estes poemas!
Quem diria!
10:15 Escrito em Poesia | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail
01-10-2007
Mário Faustino - Fragmentos de uma obra em progresso
...
Juventude -
a jusante a maré entrega tudo -
maravilha do vento soprando sobre a maravilha
de estar vivo e capaz de sentir
maravilhas no vento -
amar a ilha, amar o vento, amar o sopro, o rasto -
maravilha de estar ensimesmado
(a maravilha: vivo!),
tragado pelo vento, assinalado
nos pélagos do vento, recomposto
nos pósteros do vento, asassinado
na pletora do vento -
maravilha de ser capaz,
maravilha de estar a postos,
maravilha de em paz sentir
maravilhas no vento
e apascentar o vento,
encapelado vento -
mar à vista da ilha,
eternidade à vista
do tempo -
o tempo: sempre o sopro
etéreo sobre os pagos, sobre as régias do vento,
do montuoso vento -
e a terna idade amarga - juventude -
êxtase ao vivo, ergue-se o vento lívido,
vento salgado, paz de sentinela
maravilhada à vista
de si mesma nas algas
do tumultuoso vento,
de seus restos na mágoa
do tumulário tempo,
de seu pranto nas águas do mar justo -
maravilha de estar assimilado
pelo vento repleto
e pelo mar completo - juventude -
a montante a maré apaga tudo -
...
09:00 Escrito em Poesia | Permalink | Comentários (2) | Trackbacks (0) | Enviar por e-mail
21-09-2007
Penúltima palavra
O Espaço?
- A vida
Ida
Sem traço.
O Amor?
- Seu preço:
Desprezo
E dor.
O Sonho?
- Infindo,
É lindo
(Suponho).
Que vou
Fazer
Do ser
Que sou?
Isto,
Aquilo,
Aqui,
Ali.
Jules Laforgue
20:38 Escrito em Poesia | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail
02-09-2007
Ricardo Reis
Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista.
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.
10:05 Escrito em Poesia | Permalink | Comentários (0) | Trackbacks (0) | Enviar por e-mail
19-08-2007
"E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha"
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
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03-08-2007
amar os sonhos que restarem frios
09:49 Escrito em Poesia | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail















