Fernando, é madrugada. Deu de chover antes que o calor derretesse o chocolate boêmio e o que me resta de juízo. Há pouco eu tocava violino e fumava ópio, letargias em Baker Street, pensamento trafalgando na neblina.
28 de outubro e em 2006 ainda se chove a cântaros. Ultimamente tem passado muitos anos, mas não tantos que não possamos nos descobrir desconhecidos todas as manhãs em frente do espelho, cansados de saber quem somos. Acossado pelas horas inúteis, lavo na pia os olhos, donde ainda escorrem uns restos de treva, para continuar. Certo de que serei interrompido antes de. Terminar, quem sabe, quem sabe qualquer coisa a essa hora indecente em que o sol fura o vitrô do banheiro e brilha na torneira, luz demais provoca escuridão, sempre precisei da noite, embora a miopia.
Preciso te contar. Há dois modos de se sentir míope por alguns segundos. Um: olhar para os letreiros coloridos e para as luzes dentro de um carro em movimento num dia de chuva. Sem óculos, é isso daí, veja minha situação. Dois: todas as noites são quadros noturnos de Van Gogh.
E chove chuva no patropi. Agradeça a Deus por estar no paraíso - já vai aliviando a minha aí desse lado - porque este ano será o mais quente desde antes de você nascer. Tá quente pra dedéu, omeletes fritos na testa. Na Bahia é pior mas eu nunca fui lá...
Tem certos dias em que ando em linha reta e termino por concluir que sou a única pessoa vil, no sentido mesquinho e infame da, exceto nos domingos e dias santos. Então sei que o problema é o seguinte: não há problema. E não analiso não. Ao dentista tenho ido diariamente.
O cinema, você não iria gostar. Em 1963 the times they are a-changing e havia mais esperança no mundo. Em 2128 dirão o mesmo que agora, novas palavras repetidas. A moda ainda é anos 80: Balão Mágico, Bozo e bosta, pra não dizer merda, que sou pudico. Criei a campanha: abaixo os anos 80! Avisa o Hélio, preciso de ajuda nessa minha cruzada. Enfim, os palhaços morrem e o youtube perpetua.
Isso de blog, então, nem te conto. Cá entre nós, enche o saco, meu pokemon de Jesus, nem mestre Biá bota ordem nessa anarquia. Você posta um poema biito do Demetrius, pensam que é seu, você dá a César o que é de César e ainda acham ruim. Não deviam, porque que importa quem, então, no fim de tudo, o quem importa é a grife. O diabo veste prada, Fernando, e eu tô sem camisa porque faz calor nos trópicos, ai que preguiça, perdi minha muiraquitã, vou no Piauí buscar outro deus.
Li o suficiente pra confirmar sua teoria: ai dos que sabem, pagarão por ainda saberem pouco. Aquilo que não sabes - é tudo o que sabes, Eliot entre um martini seco e outro, tomei o caminho da ignorância. Dizque protegem os distraídos, tô sabinando aqui.
Em dois anos não aconteceu muita coisa, como sempre acontece. O São Paulo foi tricampeão mundial (agora só discuto futebol com torcedores do Boca, Real Madrid, Peñarol, Milan...), Bob Dylan lançou um disco novo, qualquer pessoa pode ver Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o melhor filme sobre amor, seilá, desde Truffault (Jules e Jim ou Beijos Roubados, você escolhe). Aprendi novas mentiras, truques inventei, alguns erros reciclei, mas ainda não consigo tocar Abismo de Rosas de modo claro e límpido. Minha mãe diz que tenho talento. Só se for igual ao seu, a gente já pode montar uma banda: eu no violão, você na bateria. Ah, mas os vizinhos...deixa quieto.
Salvar-me? Não quero nada disso, tetrarca!, eu quero só as 3 mulheres do Sabonete Araxá. Olha, a sorte do Manuel Bandeira é não ter nascido na época das mulheres do Sabonete Lux, my plastic love, sinceramente, só o Thom Yorke consegue.
Tenho tido muita delicadeza inútil. Morro de delicadeza. Par delicatesse j'ai perdu ma vie: errurs que me souffle, magies, parfums faux, musiques puériles...Me trate com jeito, eu tenho saída. Descobri que sou poeta lendo Octavio Paz - sempre vivo cada dia como se fosse o último e ainda tivesse todo o tempo pela frente.
Pálido cavaleiro que se arrasta entre o blues e uma sinfonia desesperada, tento amar meu vizinho e fazer o bem para os outros, mas, minha mãe, as coisas não tão dando muito certo não. Só sei que a culpa não foi, não é e não será minha. Eu estou inocente e sou por natureza, ou nome. Gabriel, dezenove líricos e vulgares anos, tentou começar Água Viva mais de quinze vezes e, quando conseguiu, foi numa noite insone, e, só. Recomendações à Clarice. Ninguém é eu, ninguém é você, isto é a solidão. As almas são incomunicáveis, que fazer, Emil Fahrat, Octavio Faria. Me contradigo? Tudo bem, sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, contenho multidões, j'ai ne plus qu'une occupation: me refaire.
Ah, meu amigo Fernando Sabino, só o esquecimento é que condensa, let me forget about today until tomorrow, quando eu souber minha canção ficarei em pé sobre o oceano até começar a afundar feito pedra, e então vai chover como hoje, vai chover muito, os céus vão desabar em fúria, mas vou dançar da escada até a ponte, e nesse dia já não será preciso saber nadar, porque minha alma servirá de abrigo.