31-10-2006

Sabini, Sabinium, Sabinorium

    Fernando, é madrugada. Deu de chover antes que o calor derretesse o chocolate boêmio e o que me resta de juízo. Há pouco eu tocava violino e fumava ópio, letargias em Baker Street, pensamento trafalgando na neblina.
    28 de outubro e em 2006 ainda se chove a cântaros. Ultimamente tem passado muitos anos, mas não tantos que não possamos nos descobrir desconhecidos todas as manhãs em frente do espelho, cansados de saber quem somos. Acossado pelas horas inúteis, lavo na pia os olhos, donde ainda escorrem uns restos de treva, para continuar. Certo de que serei interrompido antes de. Terminar, quem sabe, quem sabe qualquer coisa a essa hora indecente em que o sol fura o vitrô do banheiro e brilha na torneira, luz demais provoca escuridão, sempre precisei da noite, embora a miopia.
    Preciso te contar. Há dois modos de se sentir míope por alguns segundos. Um: olhar para os letreiros coloridos e para as luzes dentro de um carro em movimento num dia de chuva. Sem óculos, é isso daí, veja minha situação. Dois: todas as noites são quadros noturnos de Van Gogh.
    E chove chuva no patropi. Agradeça a Deus por estar no paraíso - já vai aliviando a minha aí desse lado - porque este ano será o mais quente desde antes de você nascer. Tá quente pra dedéu, omeletes fritos na testa. Na Bahia é pior mas eu nunca fui lá...
    Tem certos dias em que ando em linha reta e termino por concluir que sou a única pessoa vil, no sentido mesquinho e infame da, exceto nos domingos e dias santos. Então sei que o problema é o seguinte: não há problema. E não analiso não. Ao dentista tenho ido diariamente.
    O cinema, você não iria gostar. Em 1963 the times they are a-changing e havia mais esperança no mundo. Em 2128 dirão o mesmo que agora, novas palavras repetidas. A moda ainda é anos 80: Balão Mágico, Bozo e bosta, pra não dizer merda, que sou pudico. Criei a campanha: abaixo os anos 80! Avisa o Hélio, preciso de ajuda nessa minha cruzada. Enfim, os palhaços morrem e o youtube perpetua.
    Isso de blog, então, nem te conto. Cá entre nós, enche o saco, meu pokemon de Jesus, nem mestre Biá bota ordem nessa anarquia. Você posta um poema biito do Demetrius, pensam que é seu, você dá a César o que é de César e ainda acham ruim. Não deviam, porque que importa quem, então, no fim de tudo, o quem importa é a grife. O diabo veste prada, Fernando, e eu tô sem camisa porque faz calor nos trópicos, ai que preguiça, perdi minha muiraquitã, vou no Piauí buscar outro deus.
   Li o suficiente pra confirmar sua teoria: ai dos que sabem, pagarão por ainda saberem pouco. Aquilo que não sabes - é tudo o que sabes, Eliot entre um martini seco e outro, tomei o caminho da ignorância. Dizque protegem os distraídos, tô sabinando aqui.
  Em dois anos não aconteceu muita coisa, como sempre acontece. O São Paulo foi tricampeão mundial (agora só discuto futebol com torcedores do Boca, Real Madrid, Peñarol, Milan...), Bob Dylan lançou um disco novo, qualquer pessoa pode ver Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o melhor filme sobre amor, seilá, desde Truffault (Jules e Jim ou Beijos Roubados, você escolhe). Aprendi novas mentiras, truques inventei, alguns erros reciclei, mas ainda não consigo tocar Abismo de Rosas de modo claro e límpido. Minha mãe diz que tenho talento. Só se for igual ao seu, a gente já pode montar uma banda: eu no violão, você na bateria. Ah, mas os vizinhos...deixa quieto.
    Salvar-me? Não quero nada disso, tetrarca!, eu quero só as 3 mulheres do Sabonete Araxá. Olha, a sorte do Manuel Bandeira é não ter nascido na época das mulheres do Sabonete Lux, my plastic love, sinceramente, só o Thom Yorke consegue.
   Tenho tido muita delicadeza inútil. Morro de delicadeza. Par delicatesse j'ai perdu ma vie: errurs que me souffle, magies, parfums faux, musiques puériles...Me trate com jeito, eu tenho saída. Descobri que sou poeta lendo Octavio Paz - sempre vivo cada dia como se fosse o último e ainda tivesse todo o tempo pela frente.
    Pálido cavaleiro que se arrasta entre o blues e uma sinfonia desesperada, tento amar meu vizinho e fazer o bem para os outros, mas, minha mãe, as coisas não tão dando muito certo não. Só sei que a culpa não foi, não é e não será minha. Eu estou inocente e sou por natureza, ou nome. Gabriel, dezenove líricos e vulgares anos, tentou começar Água Viva mais de quinze vezes e, quando conseguiu, foi numa noite insone, e, só. Recomendações à Clarice. Ninguém é eu, ninguém é você, isto é a solidão. As almas são incomunicáveis, que fazer, Emil Fahrat, Octavio Faria. Me contradigo? Tudo bem, sou trezentos, sou trezentos e cinquenta, contenho multidões, j'ai  ne plus qu'une occupation: me refaire.
    Ah, meu amigo Fernando Sabino, só o esquecimento é que condensa, let me forget about today until tomorrow, quando eu souber minha canção ficarei em pé sobre o oceano até começar a afundar feito pedra, e então vai chover como hoje, vai chover muito, os céus vão desabar em fúria, mas vou dançar da escada até a ponte, e nesse dia já não será preciso saber nadar, porque minha alma servirá de abrigo.

28-10-2006

Adoro essa parábola

    "Numa das três novelas de A faca de dois gumes, um escrivão está jogando damas com um comissário de polícia e pergunta se o tabuleiro é preto com quadrados brancos ou branco com quadrados pretos. O comissário diz que é branco com quadrado pretos. O escrivão, raposa velha da polícia diz que não.

    - Então é preto com quadrados brancos.

    E o escrivão:

    - Também não. É de outra cor, com quadrados pretos e brancos."

    O Tabuleiro de Damas

nem preciso dizer de quem, ou preciso? 

23-10-2006

O meu livro imaginário preferido

O que não existe é mais bonito
ou qualquer coisa assim poetou Manoel de Barros 
 
 
   Fernando Sabino morreu quando escrevia um livro novo. Na verdade, seu novo romance. Ou ainda: seu primeiro romance desde O encontro marcado - desconsiderei os outros dois, por motivos já explicados.
   O fato é que ele trabalhava num encontro entre Eduardo Marciano, protagonista d'O Encontro Marcado, e ele próprio. Dar-se-ia o embate entre a criatura e o criador. Percebeu o lance? Agora Eduardo Marciano escreveria um livro sobre Fernando Sabino - o contraponto de O Encontro Marcado, afinal, o mineiro gostava de dizer que a diferença entre ele e o personagem é que este não havia escrito um livro sobre aquele... Quem leu o romance de 1956 há de se lembrar de quando Eduardo, já bêbado, encontra-se com um sujeito que afirma ser o único elo entre ele, Eduardo, e o Criador. Essa daí é uma cena chave - não só do romance que foi escrito e que todos lemos, mas também do romance que ninguém lerá, exceto eu quando me ponho a divagar entre os anéis de fumaça da minha mente.
  O outro fato é que não teremos nada mais de Fernando Sabino que seja inédito, porque o mineiro proibiu obras póstumas, organizando, jocosamente, suas obras póstumas em vida. A esta história só as gavetas e os cofres da família Sabino têm acesso.
    O que é chato, mas maravilhoso. Porque desde então este é o meu livro imaginário preferido - aquele que Fernando Sabino não escreveu e não escreverá. Portanto, um livro perfeito.

19-10-2006

Porque hoje é sábado sim senhor

    E a gente não devia ter levantado tão cedo (as manhãs me matam). Um brinde para o poetinha num post delicioso. E um poema para você:
 
 
    Dialética
 
    É claro que a vida é boa
    E a alegria, a única indizível emoção
    É claro que te acho linda
    Em ti bendigo o amor das coisas simples
    É claro que te amo
    E tenho tudo para ser feliz
 
    Mas acontece que eu sou triste...
 

16-10-2006

Você acha que Sabino precisava de outro romance?

    Pergunta enviada pela Mari diretamente de Saturno.
 
    A julgar pelo critério Rilke (toda obra de arte nasce da necessidade), Sabino não precisava, já que não escreveu outro romance. No que fez bem, se não precisava, que se calasse. Eu endosso o critério Rilke.
    A julgar pela necessidade da crítica ou do público, parece que sim. Embora eu já o tenha defendido e o Werneck já tenha dito que se cada escritor do país nos desse um romance do porte de O Encontro Marcado, nossa literatura seria a maior do mundo.
    A julgar pela minha necessidade, não precisa. Mas que eu fazia gosto, isso sim, senhora. E isso nos leva ao próximo post...
 
   Pensando sobre, me lembrei de Borges. O escritor argentino é criticado porque nunca fez romances. Enfim. São os mesmos que entram na sorveteria e pedem um quilo de picanha mal passada. E ainda reclamam porque não tem.

15-10-2006

Por que Sabino não escreveu mais romances?

   Muito se discute por que diabos o autor de O Encontro Marcado não se dedicou a fazer um novo romance. Isto é, um romance da envergadura do já citado, porque Sabino declarou: "O Encontro Marcado, inspirado no que fui; O Grande Mentecapto, no doidivanas que continuo sendo; O Menino no Espelho, na criança que eu gostaria de voltar a ser".
    Logo de cara, já temos aí uma análise da obra pelo autor. Portanto, qualquer um pode ver que é um ciclo e tudo parece fazer sentido, com a idéia da infância sempre ali no fundo, etc e tal.
   Eu tenho uma teoria interessante, inédita e impublicável* sobre o fato de Sabino não ter escrito nenhum romance comparável ao primeiro. Uma parte da argumentação está no post abaixo, em que o comparo a Rimbaud. Mas o principal, que não vejo ninguém discutir, não é a questão da imaginação, da experiência ou da observação. As três, Sabino tinha de sobra. Alguém que consegue escrever um romance, por mais calcado em fatos reais, não tem motivo para não escrever outro romance, já que continua a viver, os "fatos reais" continuam a ocorrer, e bastariam transfigurá-los em arte. Ora, a questão, mais do que a suposta falta de imaginação, é de disposição. A pergunta mais adequada seria: por que Fernando Sabino, um sujeito que morou nos EUA, na Inglaterra, viu apresentações dos maiores jazzistas da história, teve a coletiva encerrada por Fidel Castro após fazer uma pergunta considera impertinente, foi escoteiro, cineasta, baterista de jazz, campeão de natação, amigo da maior geração de poetas que já surgiu na história do país, etc etc etc, por que esse sujeito parou com a literatura dita grande aos 30 anos, em pleno domínio de sua linguagem?
   Mas eu sou egoísta e não pretendo discutir minha teoria enquanto não for pago para e não fizer uma "pesquisa de campo" para "obter amplo conhecimento" e "visitar lugares onde o escritor morou". De graça, só a chuva.
   E a discussão, que poderia ser boa, foi solapada por Simone de Beauvoir. Além do mais, tudo isso é muito inútil e abençoado seja Fernando Sabino por nos dar biscoitos. As pirâmides a gente deixa pro Guimarães Rosa, não porque sejamos humildes, mas porque elas ainda são um mistério. Nem atravessando a terceira margem do rio. (E aqui acho até que já tenho um título para a minha teoria - "Quando Sabino atravessou a terceira margem do rio", na qual estabelecerei relações com Guimarães Rosa e o referido conto. Mas não vou me alongar nisso porque hoje é domingo, e segunda-feira ninguém sabe o que...)
 
*sugestão da Lou, leitora de Sabino e Simone.

12-10-2006

Fernando Sabino (1923-2004)

 Nasceu homem, 

 

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 morreu menino.

 

medium_fernando_sabino_-_menino.GIF

08-10-2006

"Meu destino depende desse livro"

    Foi assim que Rimbaud se referiu a Une Saison en Enfer, seu textamento poético aos 18 anos de idade. Com Fernando Sabino não foi diferente. Diz ele que, aos 30 anos, "precisava saber com quem contar". O Encontro Marcado, portanto, é um livro decisivo para o escritor mineiro: era a hora da onça beber água. Ele tinha de jogar todas as cartas na mesa.
   Muito se discute sobre a quantidade de situações autobiográficas presentes no romance - Eduardo Marciano, alter ego; Hugo e Mauro, representações de Otto, Paulo e Hélio; etc. Tamanho é o fuzuê em torno disso que ele foi obrigado a declarar jocosamente: "eu escrevi um livro sobre Eduardo Marciano - e ele, pelo menos até o momento, não escreveu nenhum livro sobre mim".
    Quem quiser compreender boa parte do século XX no Brasil, principalmente do ponto de vista dos escritores mineiros radicados no Rio de Janeiro, e são muitos, tem um bom painel dessa época. Não à toa, foi considerado "o livro de uma geração".
    Além disso, Sabino teve a sorte de ser orientado pelo papa do modernismo brazuca, o senhor Mário de Andrade. Cartas a um jovem escritor e suas respostas é um livro muito revelador do potencial do garoto de 17 anos que devia encurtar o nome: ser Fernando Sabino ou Fernando Tavares, que essa coisa de Fernando Tavares Sabino não daria certo nessas plagas.
    Graças a ajuda do mestre, Sabino apurou a linguagem - Mário dizia que ele estava "escrevendo como Machado de Assis" -, abrasileirando, desrebuscando e se pautando nos critérios de estilo: clareza, concisão e simplicidade. Mário considerava a novela A marca uma obra perfeita. Escrita aos 19 anos. A "ganância estética" do discípulo acabou prejudicando-o, levando-o a um impasse sobre os rumos da sua obra depois de escrever tamanha "obra-prima", palavras de Mário.
   É curioso imaginar que se tivesse parado ali, se tivesse morrido tragicamente aos vinte anos, Sabino seria saudado como um dos maiores escritores do país, considerado um verdadeiro gênio. Como passou a se dedicar à crônica para sobreviver, acabou sendo relegado a escritor infantil (a certa altura ele ponderava: algum dia ainda acabando me jogando pra literatura infanto-juvenil...Foi o que ocorreu). Hoje qualquer pessoa só se lembra de Sabino como aquele das historinhas engraçadas da escola, li um textinho legal, coisa e tal.
    A situação se agravou quando do lançamento de Zélia, uma paixão. Este livro só prova a tamanha imbecilidade de todos que o criticaram: queriam um livro que Fernando não se propôs a fazer. Qualquer pessoa que tenha brincado de ligar os pontos naqueles cadernos de infância sabe que, desde as primeiras páginas, o autor se posiciona do lado de Zélia: Zélia sou eu. Não só todas as mulheres deveriam ler esse livro, porque creio que a identificação com a ex-ministra será fatal (sim, será fatal!), mas todos os homens. Porque, mais do que um livro que retrata os bastidores de um dos períodos mais agitados da política nacional, é um livro sobre o amor. E quem há de se esquecer da cena final, recriada, com certo clichê é verdade - afinal, eu já disse, poderia ser você -, por Sabino? (No filme Encontros e Desencontros há uma cena "que lembra", não muito, mas lembra - aquelas visões solitárias do Japão pela janela do quarto. Claro que eu não tenho dúvidas de que Soffia Coppola leu O Encontro Marcado!)
   Após ser malhado, o mineiro se encaramujou e permaneceu entre as montanhas até sua morte, com pequenos brilharecos no lançamento da sua bem-humorada "obra póstuma em vida".
    Mas volto à sua obra central. O livro de Eduardo Marciano foi proibido nas escolas, nos primeiros anos, por ser considerado subversivo. Hoje é adotado em vestibulares. Ah, sim, Rimbaud foi considerado maldito (mais jogada de marketing e complexo de inferioridade de Verlaine do que outra coisa, é vero). Hoje é venerado pelo estado francês, que se dispõe a pagar milhões pela lettre du voyant.
    Diga, Kafka:
 
    Acho que só devemos ler a espécie de livros que nos ferem e trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos lendo? Porque nos faz felizes, como você escreve? Bom Deus, seríamos felizes precisamente se não tivéssemos livros e a espécie de livros que nos torna felizes é a espécie de livros que escreveríamos se a isso fossemos obrigados. Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Um livro tem que ser como um machado para quebrar o gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio.
 
    O Encontro Marcado, pra mim, é esse livro. O livro em que Fernando Sabino deu tudo o que tinha para poder começar. Ele pagou o preço à vista: ofereceu ao público a "história de uma experiência pessoal arrancada do coração"; foi ao extremo; adquiriu, "pelo sofrimento perfeito da vida, uma coisa muito mais nobre que a espontaneidade e muito mais espiritual do que a sinceridade: uma convicção". Como disse Machado de Assis, alguma coisa temos de sacrificar. Depois disso, nunca mais escreveu romances.
 
    ps: escreveu sim, mas essa é uma tese minha sobre o quão traumático e epifânico foi esse livro para seu autor. O resto eu não discuto, e não adianta pedir a ajuda do William Bonner.
    ps2: O Encontro Marcado faz 50 anos este ano.
    ps3: quem quiser me dar a primeira edição de presente, não se acanhe. 

02-10-2006

Fernando Sabino por ele mesmo

    Deixa o Fernando falar!

01-10-2006

É a Sabinada, estúpido!

    O mundo que se lasque.
   Está aberta a Sabinada, mês em que só se fala de Fernando Sabino, o mestre mineiro da sabimineirice. A primeira, aliás, deve ser responsável pela maior quantidade de textos sobre Sabino na blogosfera, segundo pesquisa a olho nu sem margem de erro. Este ano vou me limitar a observações sagazes e sabidas, porque gastei o dedo digitando essa montoeira de palavras aí.